TOXOPLASMOSE – Uma perspectiva mais abrangente sobre esse protozoário!

Zoonoses que podem ser graves!

QUEM É O VILÃO e OFERECE RISCO À SAÚDE HUMANA?

Meu gato pode não ser o vilão, pois ele pode estar na Ave ou em qualquer outro mamífero que conviva ou sirva de alimento para os humanos, além de ter sido depositado sobre verduras e legumes que foram mal higienizados!
A toxoplasmose é uma zoonose causada pelo protozoário Toxoplasma gondii que acomete mamíferos e aves. Essa doença possui importância em Saúde Pública por ser cosmopolita, acometer fetos e crianças pequenas, apresentar-se como infecção oportunista em casos de imunossupressão e por causar impactos econômicos na produção animal, principalmente devido às perdas por morte e aborto (Millar et al. 2008, Fialho et al. 2009).
Seu ciclo é heteroxeno facultativo. Existem três estágios infectantes para os hospedeiros definitivos (felídeos) e intermediários (demais mamíferos e aves): os taquizoítas, que possuem forma alongada, ligeiramente arqueada, estando presentes em células nucleadas e líquidos corporais e que se caracterizam pela reprodução por endogenia no interior do vacúolo parasitóforo, formando com a célula hospedeira o grupo tecidual; os bradizoítas, de morfologia similar, diferindo-se do primeiro pela reprodução lenta dentro dos cistos teciduais que também ocorre por endogenia e oocistos, formas imaturas e não esporuladas, as quais são produzidas no epitélio intestinal dos felídeos e eliminadas nas fezes desses no meio ambiente (Amendoeira et al. 1999, Tenter et al. 2000).
Os hospedeiros definitivos se infectam por ingestão de oocistos esporulados a partir do meio ambiente ou por ingestão de cistos teciduais de hospedeiros intermediários (Tenter et al. 2000).
Estima-se que cerca de 20 a 90% da população mundial humana adulta esteja infectada por T. gondii, havendo infecção assintomática na maioria dos casos (Galván-Ramírez et al. 1998, Hill et al. 2005). 
A toxoplasmose pode ser congênita ou adquirida. Na forma congênita, a possibilidade de transmissão é baixa e a doença grave quando a infecção ocorre no primeiro semestre de gestação, enquanto a possibilidade de transmissão é alta e a doença mais branda no último semestre de gestação.
Quando a infecção materna ocorre meses ou anos antes da gestação, a possibilidade de transmissão maternofetal é rara (Watson 1972, Wong; Remington 1994), exceções podem ser notadas em mulheres imunocomprometidas com lupus eritematoso sistêmico ou síndrome da imunodeficiência adquirida (Tenter et al. 2000). Nos casos de primoinfecção durante a gestação, o parasito pode se disseminar por via transplacentária causando morte fetal e abortamento.
Casos de retardo do desenvolvimento físico e mental nas crianças sobreviventes são freqüentes. A toxoplasmose congênita pode causar retinocoroidite, calcificações cerebrais, hidrocefalia ou microcefalia, além de manifestações neurológicas entre as quais perturbações psicomotoras e convulsões generalizadas. Podem também estar presentes uma ampla variedade de sintomas não específicos tais como esplenomegalia, hepatomegalia, febre, anemia e linfadenopatia (Tenter et al. 2000, Hill et al. 2005, Dubey; Jones 2008).

O RISCO DA CAÇA

Num elevado percentual (74,4%) de propriedades, o consumo de carne de caça foi descrito. A intensa contaminação ambiental pode gerar um efeito acumulativo nesses animais à medida que a idade aumenta. Gambás, por exemplo, são altamente suscetíveis ao T. gondii, apesar da soroprevalência ser geralmente mais baixa do que a dos mamíferos (Tenter 2009). No presente estudo, não foi observada a associação desta variável com a soropositividade em galinhas, esse achado corrobora com o estudo realizado em seres humanos por Camargo et al. (1995) em Minas Gerais e Bahia-Oliveira et al. (2003) em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro. Todavia, Alvarado-Esquivel et al. (2009), encontraram associação entre consumo de carne de caça e soroprevalência da infecção por T. gondii em gestantes no México.

POÇO MANUAL

No presente estudo, a origem da água consumida pelos humanos e animais era de poço e riacho ou fonte, sendo que uma parcela dos seres humanos não ingeria água filtrada ou fervida, podendo, portanto, servir de fonte de infecção para os homens e os animais. Apesar dos poços serem tampados na maioria das propriedades, a água das chuvas poderia funcionar como carreadora de oocistos eliminados pelos gatos, disseminando a contaminação no ambiente e nas fontes de água. A infecção por T. gondii em humanos associada à ingestão de água não filtrada já foi relatada. Um inquérito sorológico e epidemiológico foi realizado na região de Campos dos Goytacazes entre os anos de 1997 e 1999 para verificar a infecção por T. gondii em humanos motivado por relatos de uveíte por toxoplasmose.
Após ajuste dos resultados por idade, foi constatada maior soropositividade no grupo de nível socioeconômico baixo (84%), quando comparada aos grupos de níveis socioeconômicos intermediário (62%) e superior (23%) e um aumento da soropositividade em todas as populações estudadas em função da idade. Os grupos de níveis socioeconômicos baixo e intermediário apresentaram maior chance de infecção por T. gondii  por ingestão de água não filtrada em relação àqueles que não tem esse hábito (Bahia-Oliveira et al. 2003).

Oocitos de Toxoplasma

Um surto envolvendo 155 humanos no município de Santa Isabel do Ivaí, Paraná foi associado à ingestão de água contaminada com oocistos de T. gondii ou sorvete preparado com essa água. A contaminação do reservatório de água foi implicada como fonte de infecção do surto e foi possivelmente atribuída a presença de gata com filhotes vivendo no topo do reservatório que continha rachaduras e não era adequadamente protegido da água da chuva e conseqüentemente, da contaminação das fezes de gatos. Além disso, o processo de tratamento de água não incluía as etapas de floculação e filtração.
O reservatório foi fechado e um novo foi construído (de Moura et al. 2006). Segundo Jones e Dubey (2010), oocistos de T. gondii são resistentes às influências ambientais, inclusive congelamento, não sendo inativados pelos tratamentos físico e químico comuns aplicados no tratamento de água, inclusive cloração, uso de raios ultravioleta e tratamento com ozônio. Eles podem sobreviver por mais de 54 meses em água fria. Sistemas de tratamento de água devem incluir a etapa de filtragem da água para eliminar Cryptosporidium sp. (3-5µm) e conseqüentemente, T. gondii (10-12µm).  Segundo Tenter et al. (2000), é possível manter criações de aves e porcos livres de T. gondii por meio de medidas de confinamento, higiene e prevenção.
Para isso, deve-se utilizar sistemas de confinamento livres de roedores, pássaros e insetos, alimentar os animais com ração esterilizada e controlar o acesso à criação e ao local de estocagem de ração para impedir a entrada de animais no local. Porém, na região estudada, considerando que se trata de uma população com baixo nível socioeconômico que usa a criação com finalidade principal de subsistência, com carência de condições para investir na criação, tais ações tornam-se impraticáveis.
Nesse caso, as seguintes medidas profiláticas poderiam ser eficientes: lavar as mãos após o contato com a terra ou horta, antes de cozinhar e após o contato com carne crua, lavar bem as frutas e verduras antes de consumi-las, não ingerir carnes e ovos crus ou mal cozidos, beber somente água filtrada ou fervida, beber apenas leite fervido ou pasteurizado, lavar as mãos após o contato com os animais, fornecer ração ou alimentos bem cozidos aos gatos e cobrir os poços afim de evitar que os gatos defequem na água. O relato de casos de toxoplasmose existentes nas propriedades investigadas e na região aponta a necessidade de estudos sobre a infecção toxoplásmica em humanos no município de Rio Bonito. Resultados mais conclusivos poderiam ser obtidos por meio de inquérito sorológico na população humana e investigação das variáveis associadas à infecção dessa por T. gondii.
Fonte: Dra. LUCIANA CASARTELLI ALVES


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